Esquética é...
Construindo Consensos

Skeptiké (grego) é olhar atentamente, examinar com cuidado e exercer o ceticismo evolucionário até que o argumento se torne irrefutável. Èthiké (grego) é o costume, o modo de ser que se firma pela prática bem aceita, bem como as razões que o motivam, distorcem, disciplinam e orientam.
Esquética, portanto, é uma metodologia de conciliação e aprendizado evolucionário, que une principalmente Direito, Ética e Psicanálise, como meio de construção de novos consensos. Consensos graduais que possam nos tirar da ignorância e da desalienação sistêmica, isto é, da estagnação, do conformismo e da pretensão de que se sabe alguma coisa além de nada se saber de fato (“só sei que nada sei”, Sócrates)

E, com isso, o que se busca é o autoconhecimento no contexto da alteridade, partindo-se da escuta, da dúvida e do incômodo pela provocação, pelo diálogo, e pela dinâmica de técnicas e exercícios que ajudam a desconstruir paradigmas, denotar influências e desvelar possibilidades. Nada em definitivo e tudo aprimorável, como um agir filosófico que pretende à sabedoria inalcançável, e que só se contenta com a dignidade de reconhecer-se em seus múltiplos sujeitos e narrativas de incompletude. Enfim, um agir comunicativo atento e esclarecido, que se insere no outro e na sociedade, na natureza e no Logos que tudo isso contém, sem pretensões de certezas, aberto às incertezas e mais propenso às imponderabilidades que aprimorem.


Missão
Servir de instrumento para a realização do impossível, que é a verdade do sujeito, por meio da construção de novos consensos na direção da dignidade.
Visão
Provocar novas perspectivas de conhecimento, autoconhecimento e prática do bem na conciliação da dignidade esclarecida e mais tolerante.

A história em detalhes
Uma trajetória da construção de consensos
Fase 1
Tudo começou em 2014, quando vivi o ápice daquilo que as pessoas costumam chamar de “Crise dos 40 anos”, quando os dilemas existenciais de relacionamento, carreira e propósito de vida costumam eclodir. Do ponto de vista pessoal, recorri às práticas integrativas da medicina, à mudança de hábito de saúde e aos recursos de tratamento e reforma íntima que espiritualidade atenta permite. Infelizmente, ou não, nessa época a Psicanálise ainda estava trancada em uma gaveta guardada a sete chaves.
Mas o meu principal problema era profissional. Precisava lidar com os mecanismos provedores de recursos de autopreservação, isto é, ter uma fonte de renda saudável. E precisava me reintegrar no trabalho como meio de me relacionar com os outros e realizar meus desejos, isto é, a necessidade de suprir uma falta inevitável de fazer parte de algo maior, de ter um propósito social, de ser reconhecido pelo meu esforço e realizações, e, enfim, de ser amado no contexto da sociedade neoliberal em que nos inserimos. Outras formas de trabalho seriam possíveis se vivesse em outros tipos de organizações sociais, mas não era o caso.
Especificamente no aspecto do trabalho, desenvolvi uma profunda frustração com o Direito, por me deparar com a impossibilidade prática e teórica de se resolver questões éticas do cotidiano e do modo de agir das empresas, já que minha especialidade era o Direito Empresarial. Meus clientes e empregadores, e possivelmente todos os demais, tinham uma aversão a qualquer proposição que não fosse uma brecha na lei que melhor lhes servisse e atendesse os interesses, amplificasse os resultados financeiros e mercadológicos, e lhes defendesse da sede inexaurível de arrecadação de tributos pelos governos.

Uma das frases que melhor defendia esse contexto, quando alguém tinha algum escrúpulo, era: “temos que andar no limite do alambrado”; mas em muitos casos ter escrúpulos era mais uma caricatura utópica, risível e ingênua. E já havia passado por diversos setores, como: bancário, construção/engenharia, industrialização/consumo, mineração e saúde, além de desistir de diversas ofertas de altos postos executivos em outros seguimentos e em sociedade de escritórios de advocacia, cujo principal critério era a disponibilidade e destreza de fazer tráfico de influência e combinar subterfúgios jurídicos para criar oportunidades. Quanto mais alta a posição, mais descaradamente esse ponto era preciso. Esses foram os meus “anos de chumbo”, em um cenário que imaginava intransponível.
E, sim. Tinha uma ampla expectativa de empreender na técnica jurídica aquilo que a Modernidade trouxe como promessa de organização e bem-estar social pelo Estado Democrático de Direito e que Rousseau e outros contratualistas do período da Revolução Francesa chamavam de “Contrato Social”, com o fim de superar os regimes absolutistas de então. Logo, isso não fazia de mim melhor do que ninguém, nem talvez mais lúcido. Apenas me colocava no patamar dos idealistas, como bem sintetizado em Kant: “tudo na vida tem ou um preço ou uma dignidade”. Escolhi a dignidade.
A carreira jurídica não era minha primeira opção. Cheguei a cursar Psicologia, mas tive que desistir por falta de recursos. O Direito veio como uma resposta rápida e eficaz de atender aos propósitos da minha linha de conhecimentos e suprir minha escassez. Jamais quis a carreira pública ou a advocacia privada, na forma como as pessoas entendem por advocacia tradicional. Nada contra esses profissionais, mas o que mais me encantava era a possibilidade de trabalhar a perspectiva das engrenagens do Direito e de ingressar em campos econômicos de grande impacto, buscando tarefas que colocassem em xeque o modo de fazer as coisas, e isso me abriu portas e agradou muita gente que me contratou. Porém sempre me deparava com alguma encruzilhada ética e, conhecendo eles o meu perfil, acabava sendo afastado do caso, enquanto eles resolviam de modo mais pragmático, neutralizando o problema com uma das infindáveis formas de corrupção, velada ou sem filtros. Estive diversas vezes nesse alambrado, mas nunca me senti atraído por ele. Ao contrário, ele sempre me trouxe aversão. Alguns analistas que estejam lendo esse texto já devem ter feito inúmeras conclusões sobre o papel da castração e das leis, na figura paterna, em minha trajetória.
Enfim, no contexto do meu trabalho prevalecia o positivismo jurídico de conveniência, em versão oportunística de se apropriar das falhas da norma, no sentido da sentença atribuída a Maquiavel: “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Eu era um reles mortal buscando sobrevivência e desejando me sentir importante para o mundo. Ambicioso, mas cheio de escrúpulos; alguns possivelmente exagerados e até mesmo arrogantes, na perspectiva de qualquer falibilidade, ainda que submersa em elevados propósitos.
Diante disso, como podia me recolocar no mercado se não conseguia mais driblar esses limites e cada vez mais era tido como o “Estranho no Ninho”, para não ser indelicado, pegando carona no filme de Milos Forman, com Jack Nicholson. Resolvi, então, retomar por conta própria os estudos de Ética que havia iniciado anos antes, pela abordagem do “Agir Comunicativo” de Habermas. Era um enorme desafio ler esse crítico alemão sozinho, pois não havia muitos autores brasileiros que o traduziam e comentavam didaticamente, como hoje. Vencidos os primeiros obstáculos, percebi que a Teoria Crítica, também por meio de outros autores, revirou o Direito e colocou o dedo na ferida, especialmente quanto à fundamentação do Direito, a sua legitimação e eficácia na sociedade contemporânea, frente àquelas promessas do Iluminismo.
Na prática, percebi que vivemos em uma dimensão fictícia, onde apenas com muito esforço e um grande reducionismo conseguimos alguma pacificação social, mas não sem provocar ao mesmo tempo mais desigualdades sociais.
Em outras palavras, percebi que precisava quebrar paradigmas e reformular os meus conceitos, mas minha formação acadêmica e estrutural me forçavam a utilizar o rigor das técnicas, da lógica racional e dos meus ideais intrínsecos, em defesa de uma sociedade justa e harmônica, baseada na solidariedade, com fim de produzir o equilíbrio entre a liberdade e igualdade. Temas esses que se perderam no mundo real, pela necessidade primária de se resolver com imediatismo os conflitos socioeconômicos e os anseios de prosperidade e bem-estar que a utilidade demanda. Isto é, o estar bem a partir de um Mínimo Existencial pragmático, seguindo uma tabela de conquistas de recursos e reconhecimento social, na forma de uma Economia de Felicidade, com todas as sua variantes.
Eu já tinha alcançado vários degraus dessa tabela e estava no “ponto da crise”, parafraseando Malthus e sua teoria do colapso, só que no meu caso, naquele instante, a fome era mais de valores morais do que materiais. E entendi que, de alguma forma, o Direito precisava resgatar a Ética para reencontrar sentido e atender aos seus objetivos primordiais; não os meramente econômicos ou narcísicos de quem detém poderes legislativo e de justiça.
A Ética é um braço da Filosofia; um dos seus mais importantes, junto com a Lógica e Conhecimento. E isso me levou a Sócrates e Platão, especialmente à Maiêutica, que também é base para Hegel, Marx e a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, onde lecionou Habermas. Em síntese, Sócrates partiu da proposição de que não sabia nada e que o reconhecimento dessa ignorância é que o tornava mais próximo da sabedoria, já que os tolos que se pretendem sabedores vivem em constante contradição e erro: “só sei que nada sei”.
A dúvida parte do ceticismo; mas não do cinismo, que é uma forma deturpada de dúvida, sem o fim de alcançar a verdade das coisas, mas apenas de confundi-las e gerar benefício a si mesmo. A proposição da dúvida constante leva ao aprimoramento pessoal e coletivo. É isso o que procuram fazer as Ciências, bem como sempre fez a Filosofia e, com ressalvas, a boa Religião, como conquistas civilizatórias que nos distiguem dos demais reinos da natureza. Somos o enredo disso tudo e um pouco mais.
Assim, o ceticismo em grego antigo é algo parecido com Skeptiké, que se relaciona com a dúvida e também à esquema, no sentido de organizar as ideias e proposições de forma lógica. Essa é, por meio disso, a primeira parte da metodologia Esquética: duvidar, questionar, ir a fundo nas questões, investigar, enfrentar paradigmas e assim por diante.
Já a segunda parte vem de Èthiké, que para os gregos tinha a mais alta relevância, pois dizia respeito não apenas ao comportamento acordado entre os cidadãos (homens livres, reconhecidos como membros das cidades-estado, excluindo todos os demais, até mesmo mulheres, crianças, escravos e estrangeiros). Dizia respeito também às leis divinas, quer por superstição nas inúmeras deidades mitológicas, quer pela aliança com o Dáimon, tido por eles como um “bom gênio” que os conduzia, na Filosofia, à felicidade plena da Eudaimonia, na sabedoria e no Amor-Ágape, o sublime.
É importante levar-se em consideração que alguns gregos eram iniciados em conhecimentos ocultos, de escolas iniciáticas mais antigas, cujos documentos não chegaram aos nossos dias, senão por meio de fragmentos e adulterações. A escola mais conhecida era o Orfismo, mas havia também os pitagóricos e tantos outros. O fato é que tanto Dáimon quanto Eudaimonia são expressões inconclusivas para a nossa linguagem atual, mas era significativa para eles, tanto que Sócrates se utiliza desses termos em seu julgamento, tentando evitar a sua condenação injusta.
Para a Esquética, ambos os conceitos complemento o sentido da Ética, pela perspectiva de uma lei deontológica, intrínseca ao ser humano, e que vai sendo descortinada na medida em que o sujeito se põe no caminho do conhecimento e da prática do bem, que são as virtudes, muitas delas enumeradas por Aristóteles e resumidas como sendo o caminho do meio e da moderação, de modo similar ao que Sidarta Gautama havia propagado na Índia e seu entorno. Mas Sócrates não fala em moderação; fala em ser e tornar-se digno por meio da atitude ética de duvidar das coisas e de procurar a sabedoria publicamente, diante de qualquer opositor.
Logo, a Esquética tem essa proposição de construir consensos por meio da dúvida, do questionamento pessoal e social, inclusive do Direito, como lei regente no contexto da falibilidade humana. A Esquética propõe que se busque sempre alcançar a norma absoluta e não apenas a finalística, que pretende apenas atender aos interesses imediatos daqueles que promulgam e interpretam a lei, tal como os juízes de Sócrates. E faz isso pela democracia, similar ao que Habermas propõe na discussão da esfera pública, tomando por premissa a necessidade de se ter: sincero interesse, firme propósito, atitude concreta e coerente, e abertura para o outro, de modo procedimental e aprimorável.
Assim termina a primeira etapa da Esquética, somada ao Direito. Uma nova etapa começa em 2021.

Fase 2

A partir de 2018 a eficácia da metodologia Esquética, unindo Direito, Ética e já algumas outras práticas, foi colocada em xeque no experimento de uma grande reestruturação empresarial da área da saúde. O desafio exigia uma perspectiva universalista kantiana e ao mesmo tempo pragmática, pelos resultados econômicos esperados de sobrevivência e recuperação do empreendimento. Era como se a pulsão de sobrevivência estivesse se sobrepondo a qualquer custo, como tendência, e o meu papel fosse o de encontrar possíveis saídas de moral-jurídica efetiva. Amarga ilusão que permeia o Neoliberalismo, onde os fins sempre terminam por justificar os meios e depois modificar-se e adequar-se indefinidamente como meios.
O trabalho exigia dedicação integral, inclusive nos finais de semana e feriado, além de viagens semanais no Brasil e no exterior. A compensação vinha pelos recursos disponíveis, embora relativamente escasso no contingente de pessoas e orçamento, mas supostamente suficiente para tentar se cumprir o desafio. A adesão a isso foi voluntária e não posso culpar ninguém, como fruto resultante da minha própria neurose.
O aspecto mais interessante desse desafio era evitar uma condenação trabalhista, em ação civil pública, que quebraria a empresa, e reduzir drasticamente as intercorrências e os danos decorrentes de atos médicos de quase-acidente e acidentes clínicos e administrativos. Os hospitais funcionavam 24 horas por dia, 7 dias por semana; daí o monitoramento e suporte em tempo real e integral. Muitos êxitos foram obtidos, de modo surpreendente, como mérito do trabalho integrado de profissionais do mais alto comprometimento e habilidade. Porém o preço foi pessoal de várias dessas pessoas e meu, em particular, foi muito alto.
Nesse mesmo ano tive um Burnout, daqueles que geram colapso tanto físico quanto mental. Foi às vésperas da conclusão de um dos cursos de minha formação executiva nos EUA. Recorri a tratamento psiquiátrico, a novas práticas de medicina interativa e mudança de hábitos, e finalmente também à Psicanálise, que foi o grande divisor de águas. Em meio a isso, tive uma síncope e um grave acidente de carro, além de vários novos conflitos de relacionamento pessoal e no trabalho. Tudo aparentemente dentro da normalidade dos desafios que o mundo corporativo nos exige e que a sociedade aceita pela submissão ao tido como inevitável. Era a pulsão da necessidade de sobrevivência, e o gozo/contentamento imediato que isso representa, sobrepondo-se à Pulsão da Libido, o Eros, que deveria me levar ao bem-estar do prazer/contentamento reprimido, por outros meios e em outras dimensões da vida; bem além do mero hedonismo, que é a ilusão do outro extremo, diga-se de passagem, comumente sintetizada na expressão “Work hard, play hard”, do rapper norte-americano Wiz Khalifa, como se essa compensação fosse realmente possível, em ambos os extremos, de forma salutar.
A Psicanálise me levou a uma total reformulação da Esquética, reconhecendo que muitas vezes o idealismo sem meios apropriados não se sustenta. Parti do diagnóstico daquilo que chamaram de Síndrome de Compaixão. Um nome sugestivo para designar a situação do paciente, normalmente profissional da saúde, que se encerra no trabalho, preterindo a sua vida pessoal e sua rede de apoio emocional, entre família e amigos. Uma forma de transtorno obsessivo compulsivo que produz crises de ansiedade, depressão e pânico em alguns casos, e pleno esgotamento físico, pela incapacidade de repor energia e descanso apropriados. Os corredores das clínicas e dos hospitais estão repletos de pessoas com esses sintomas, e também outros ambientes empresariais, especialmente se somado a isso o assédio moral e, porventura, sexual, que tais profissionais enfrentam, também próprios e comuns no contexto neoliberal corrente.
Mas de toda crise resta sempre um aprendizado, pelo amor ou pela dor, como se costuma dizer. No meu caso doeu muito e foi a Psicanálise que me fez escutar, pela primeira vez, todo esse embaralhamento de demandas misturadas ao desejo, um desejo de desejo que nunca se saciava. Então veio a pandemia da Covid-19, e uma transição de carreira, retomando a consultoria da Esquética, foi levada à derrocada. Há vários outros motivos, é claro, mas que pouco contribuem aqui para esse esclarecimento, podendo ser interpretados como fenômenos de repetição intrometidos e, naquele momento, bastante doentios e presentes como catalisadores das minhas tomadas de decisão. E isso interferia nas premissas de abordagem da Esquética, na medida em que eu buscava atender aos quatro pressupostos de “sincero interesse, firme propósito, atitude concreta e coerente, e abertura para o outro”.
Demorei para perceber que não estava aprendendo nada com os erros, e isso fez toda diferença, passando a compor a quinta premissa da Esquética. No processo evolucionário desse aprendizado de metodologia outros certamente surgirão como aprendizado. Esse, ao menos, já foi incorporado.
A Pandemia trouxe a necessidade e de buscar novas ocupações, como estudo e voluntariado. Na oportunidade do estudo emergiram os cursos online e daí o mestrado. Mestrado em Direito, por ser o caminho óbvio e mais prático, mas voltado para as premissas da Esquética. Portanto, abrangendo a Ética e, mais adiante, sintetizado na Dignidade Humana.
A psicanálise, até então, tinha um papel de fundo, como tratamento, mas foi ganhando dimensão, na medida em que o tempo passava e os desafios e os estudos se aprofundavam. Em paralelo vieram cursos também de Neurociência e Alquimia, por meio de duas abordagens sérias, de experimentos clínicos. Mas foi no mestrado em Direito que tudo foi sendo construído, a partir da linguagem dos algoritmos e da compreensão da Norma Fundamental como instrumento de indignidade, por falsas promessas e a ilusão da igualdade.

Fase 3
O mestrado é um capítulo à parte na história da Esquética. Iniciado na pandemia, com o intuito inicial de me reciclar e expandir conhecimentos na perspectiva do Direito, acabou sendo um intenso mergulho em Ética, Filosofia do Direito, Políticas Públicas, Direitos Humanos Internacionais, Sociologia Jurídica, Economia & Empresas Globais, Resolução de Conflitos, e Direito Constitucional, que foi a base de tudo. Além disso, fiz imersões paralelas no Estruturalismo, Pensamento Complexo, Algoritmos, Viés & Ruído, e Direito & Literatura. Isso tudo dentro do escopo das disciplinas.
Daí ressurgiram “velhos” pensadores, como os gregos: Sócrates, Platão, Parmenides, Heráclito, Hesíodo. Retomei Kant também, com ênfase na questão da dignidade, aprendi muito com Edgar Morin, e conheci mais a fundo Dworkin, tanto na perspectiva do Direito como Integridade, quanto na sua visão do Liberalismo, que foi fundamental para construir o conceito de igualdade prevalente sobre a liberdade, muito similar a Rawls e Habermas.
A Psicanálise surgiu meio ao acaso e, aparentemente, fora de contexto, quando comecei a estudar o “sujeito” e me deparei com o fato de que o conceito jurídico de cidadão é muito precário e imperfeito. A Filosofia também diverge muito sobre isso e há uma longa tradição entre os que relacionam o “sujeito” à matriz divina, até aqueles que o reduzem a um mero objeto coisificado. E Freud e Lacan me salvaram, somados à Adorno e Bourdieu, trazendo luz a uma abordagem múltiplos sujeitos a partir de um mesmo núcleo do Eu em interação com múltiplos Outros, similar ao modo poético que sintetiza Fernando Pessoa em seus heterônimos: “O eu profundo e os outros eus”.
Já não precisava me prender ao Eu de Descartes (“penso, logo existo”), nem ao conceito arbitrário e reducionista de cidadão que permeia as leis humanas. E mais ainda, não precisa me perder nas intermináveis visões da metafísica, tão pouco tangíveis na construção de consensos. O “sujeito” é aquele que existe em toda a sua completude e complexidade, fruto de sua trajetória em tudo aquilo que forjou a sua história psíquica e biológica. Logo, corpo e alma no contexto de suas estruturas. E isso sem precisar entrar no campo espiritual, que não diverge nada disso, pela abordagem que sigo particularmente (mas isso é uma outra história).
Por conta disso, resolvi estudar a fundo a Psicanálise Lacaniana, fazendo dela o fio condutor do embasamento psíquico, digamos assim, do mestrado, sem que precisasse sustentar a linha teórica, que permaneceu atrelada ao Direito, como o curso exigia. E por meio dela percebi que havia também iniciado ali a minha transição de carreira.
Todo esse embasamento teórico foi fundamental para construir e desconstruir conceitos que viraram paradigmas, sendo alguns de época e que precisavam ser superados de modo dialógico e argumentativo, como determina a metodologia da Esquética, baseada no Agir Comunicativo. Ou seja, tudo é processo e não tem um término específico. O que há são intervalos para assentar ideias e prosseguir depois, em moto-contínuo evolutivo.
Com isso, em tópicos, o enredo final da dissertação, que serviu para toda essa reformulação evolutiva da Esquética, ficou assim:
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A premissa lógica de certezas que rege o mundo e o Direito é falsa. Vivemos em um mundo de impermanência, entre incertezas e imponderabilidades;
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Há uma dignidade intrínseca no ser humano que só pode ser resgatada por ele próprio, a partir de suas escolhas éticas na direção de sua autonomia, embora seja ela inatingível em sua plenitude;
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O mal-estar civilizatório é insuperável, no contexto da vida em sociedade e na natureza, mas cabe ao Direito regular o equilíbrio de forças, entre a liberdade e a igualdade, e promover a solidariedade;
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A vida é ponderada por estruturas que se organizam e produzem efeitos como algoritmos e contra-algoritmos, sujeitos a viés e ruídos que operam entre a consciência e a inconsciência, alterando constantemente as pretensões de verdade;
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Assim, “o ser e o tornar-se digno” é uma dinâmica de interesse geral, supostamente protegido pelas instituições de Estado e de organismos internacionais, mas que operam da mesma forma contra o indivíduo, que precisa salvar-se a si mesmo pelo caminho da dúvida e do autoconhecimento, a fim de libertar-se das leis que o dominam e passar a agir pela escolha do bem que está intrínseco nele mesmo, como sendo o único capaz de lhe proporcionar alguma felicidade.
Essa é uma leitura já posicionada na Psicanálise, já que o texto acadêmico foca mais no Direito. No entanto, esse resultado interpretativo mais amplo é o que me provocou a pensar e me convencer de que a resposta está no “sujeito”, ainda que a sociedade, enquanto cultura, possa auxiliá-lo, talvez tanto quanto o atrapalha.
Desse modo, podemos ser bem-sucedidos nos mais variados aspectos da vida social, de modo aparente. Mas se não resolvermos a questão da dignidade, todo o restante será frágil e provocará sintomas inevitáveis de mal-estar e descontentamento. A saída, ainda que não definitiva e imediata, é o processo de reconciliação consigo mesmo e de construção de novos consensos com o meio onde nos inserimos, progressivamente, a partir da escuta e diálogo, em um percurso que se traduz pelos seguintes princípios:
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Sincero interesse;
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Firme propósito;
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Atitude concreta e coerente;
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Abertura para o outro;
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Aprendizado com o erro.
Um ciclo que se renova, como um processo de Design Thinking, entre o criar, o testar, o implementar e o recriar novamente e incessantemente. Ou como dizia Kardec: “Nascer, morrer, renascer e progredir sempre”. E aprender esse “morrer” é fundamental, a todo instante, tanto quanto o “renascer”, em moto-contínuo.
Isso é um pouco da Esquética! Uma metodologia evolutiva de construção de novos consensos na direção da dignidade.